PODE POR MAIS ÁGUA NO FEIJÃO QUE EU ESTOU VOLTANDO...
As primeiras noticias sempre são as piores, o meu amigo Arturo só vai comigo
até Fairbanks, ele desistiu de alugar uma moto para ir a Prudhoe Bay, ele já
tinha visto antes que com sua moto seria muito difícil para chegar ao fim da
viagem. Ele fala com todos os motociclistas de Harley que encontra e estes dizem
que ele vai quebrar a moto toda, dai a idéia de alugar uma moto.
Mas ele tem
que voltar a Costa Rica para dar uma força nos seus negócios e também vai ter
que passar por Nova York, creio que de Nova York ele vai despachar a moto de avião,
pois na América central agora vai ficar ruim, tanto para ele passar sozinho,
principalmente ele com a Harley toda incrementada e cheia de acessórios.
Para ele
ficar me esperando 3 dias para que eu volte de Prudhoe Bay é difícil e caro
para ele, agora estou sozinho, por minha conta mais uma vez. Arturo valeu em
quanto durou, você cuidava mais da moto do que de você mesmo, espero que
tenhas um bom regresso e que Deus te acompanhe nesta jornada de regresso. A página
esta a sua disposição para escreveres tudo que quiseres, mesmo em espanhol,
todos vão entender o que você escrever.....ASTA LA VISTA AMIGO.......
Chego em
Fairbanks e procuro hotel, o mais barato, me custou 75 dólares, acordo e como não
sei o endereço da BMW aqui pago um táxi para me guiar ate lá. A BMW de
Fairbanks é uma casa velha no meio do mato com motos na rua cobertas apenas com
plásticos esperando seus donos. O dono, o mecânico e recepcionista são a
mesma pessoa, um Sr.alemão de uns 60 anos que conhece as BMW como poucos.
O Homem me
entrega as bandeiras que o Roberto (meu grande irmão que mora no Canadá)
mandou para eu pegar com ele, pois senão teria que ir e voltar na casa do
ROBERTO em Calgary.
As únicas
informações que tenho e posso ter sem falar Inglês sobre como ir até Prudhoe
Bay são obtidas na base do sinal, o resto que sei é o que li nos dois livros
do Clodoaldo e do Marcos cada um escreveu um livro sobre a viagem que eles
fizeram de Curitiba para o Alasca.
Vou num
supermercado e compro uma Barraca, um saco de dormir, um colchão que é uma
espuma grossa, uma caneca e muita sopa, e é claro, coca-cola para o meu rum,
afinal comprei uma caneca e não é para beber café.
Volto na BMW
e peço para deixar uma mala lá com as roupas que não vou usar e saio sem
trocar o óleo da moto, filtros de ar e nem nada.
São 2:30 de
sexta feira 27 de julho de 2001, os primeiros 60 km são asfalto ate Fox, ali
abasteci novamente e enchi o galão de 8 litros que eu tinha comprado e agora ia
amarrado na moto junto com as tralhas de camping, a moto ficou bastante
esquisita.
Mais ou menos
as 6 da tarde, ou seja, a noite entrei no circulo polar ártico, ali bati umas
50 fotos com as bandeiras do Brasil, de Santa Catarina e a bandeira dos Legends
um grupo de moto de Harley do meu amigo Benneton, que ainda não tive o prazer
de cumprimentar por seu noivado, obrigado pelo convite a mim e a Marta.
Saio dali e
chego em Coldfoot ali tem gasolina, abasteço e armo a barraca pois o Hotel
custa 145 dólares para dois e 125 para um. Fico observando o lugar, muitos
caminhões, com máquinas esquisitas em cima, a comida é de primeira. Eu fico
perguntando porque disto tudo, depois vejo muitos motoristas de caminhão
comendo e assinando uma lista, este lugar nada mais é do que um posto moderno
de diligências do passado. A comida e de primeira porque as companhias de petróleo
oferecem as melhores comidas para estes homes que trabalham em regime
atrapalhado, no verão não tem noite e no inverno não tem dia. A comida era
salmão com sobrenome francês, e os cozinheiros, todos a caráter, todos de
branco.
Ao lado do
self service, havia um pátio que era lama e poeira pura, e foi ali mesmo, que
eu esquentei uma lata de sopa, na saída do escapamento da minha moto, tomei
dois runs e dei uma de raposa que queria comer as uvas e não as alcançava.
Aquela comida de 25 dólares com sobremesa e uma cerveja não iriam fazer bem ao
meu estomago. Assim dormi com mais 25 dólares no bolso, e o estomago roncando
(tive a impressão que os roncos diziam "Pão duro miserável").
Acordei com
minha barraquinha cheia de água dentro pois a noite choveu, o saco de dormir
molhou bem como minhas meias e a jaqueta de gorotex que eu tinha usado como
travesseiro. Tive que tirar o forro da jaqueta e usa-la do lado avesso.... eu
ainda aprendendo.
De Fox a
Coldfoot não usei a reserva da moto ou muito menos o camburão que levei cheio,
agora eu tinha ate Prudhoe Bay 440 km, quando a estrada está seca você pode
andar a 100km/h e com chuva 40 Km/h é o maximo, o Arturo teria chego até aqui
com sua Harley com um pouco de sacrifício.
Dormi a meia
noite e saio tocando a moto, as 9 horas da manhã sem comer nada. Hoje passei
maus pedaços, onde a estrada tinha lama a coisa ficava preta quase fui ao chão
duas vezes. Hora inferno, hora céu, encontrei um lobo na estrada que acompanhou
minha moto por uns 100 metros, então parei e dei uma das minhas sobras de
macarrão que tinha secado. Comecei a tirar umas fotos do bicho e nisto foi
parando carros. Hoje passou por mim uma moto tiramos fotos um do outro para que
todos saibam que lá estávamos nós.
Finalmente às
16:30 da tarde do dia 28 de julho, cheguei a Prudhoe Bay a moto marcava
31.690km percorridos, sem saber que aquilo era a
cidade sonhada e idealizada para terminar um sonho. Confesso que fiquei frustrado,
pois de Fairbanks até Prudhoe Bay não tem uma uma placa dizendo Prudhoe Bay.
As placas falam de Deadhorse (cavalo morto). Esta cidade fica colada em Prudhoe
Bay (a cidade é uma merda) e tem tanto prédio e maquinário que você
acha que está numa cidade, é carro para todo lado.
Você não vê
ninguém na estrada a pé ou nas ruas, todos com o rabo dentro das pick up.
Quando eu me dei conta eu tinha chegado, me deu uma raiva danada pois eu queria
ter saboreado os últimos kilometros os últimos metros e centímetros. Tomei um
gole de rum e fui onde o Marcos e o Clodoaldo bateram foto, em frente ao US POST
OFFICE de Prudhoe Bay e em frente o General Store.
Assim tirei
mais de 60 fotos e novamente a bandeira brasileira ficou ao lado da América, a
bandeira dos Legends, Tubarões do Asfalto, Amazon Angels e até uma camisa do
Megacycle. Ah também tirei com o lenço dos toupeiras do asfalto de Palhoça.
Depois de
comprar muito souvenir, isqueiro para o Benneton pelo noivado dele, o isqueiro é
um Zippo com o mapa do Alasca, e outro isqueiro para o Dr Luis Cardenuto, mais
conhecido como Amorzinho.
Agora tá na hora de voltar, são 6 da tarde, encho o tanque numa bomba que é
um sarro, é uma casinha de madeira e por um buraco sai três mangueira uma de
gasolina e duas de óleo diesel. Entrei na casinha e dizia, somente smart card
ou visa, enfiei o cartão, e a bomba funcionou.
Agora tenho
440 km para voltar e preciso do galão cheio, a gasolina é branca e fede a querosene,
eu fique pensando: será que algum Brasileiro não andou aqui adulterando
esta gasolina?????? Ali, bem debaixo dos meus pés, estava a maior reserva
americana de petróleo, a gasolina era zero kilometro ou seja novinha.
Eu com a mente suja cheirei várias vezes a gasolina para ter certeza que não
era outro combustível.
Quem não
fala o idioma só se Fo......, porém , com meu sonho realizado eu posso gritar
agora dentro do meu capacete....(ou melhor Cantar)....PODE POR MAIS ÁGUA NO FEIJÃO
QUE EU ESTOU VOLTANDO......